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quarta-feira, 27 de junho de 2012

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Texto “desmotivacional” para o herói


"Oh! Gilgamesh, para onde vai?
A vida que procura não vai encontrar.
Quando os deuses criaram o homem,
Eles deram a morte para a humanidade;
E retiveram a vida para si mesmos.

Oh! Gilgamesh, sacie seus apetites,
Divirta-se noite e dia.
Mantenha suas vestes limpas;
Sua cabeça lavada, seu corpo banhado.
Preste atenção ao pequeno, que segura sua mão,
Deixe sua mulher deleitar seu coração.
Porque nisto consiste a parcela do homem.”

(compilação assíria da epopéia de Gilgamesh, a primeira saga do herói catalogada – 650 ac)


sábado, 13 de agosto de 2011

Velha Fórmula, Nova Embalagem - mitologia moderna

Um caso famoso de busca e reconhecimento da mitologia pela juventude (mitologia sadia ou para alguns, alienante), aconteceu na década de 70 através do filme “Stars Wars”. O diretor George Lucas era grande amigo do famoso mitólogo Joseph Campbell. Depois de estudar detalhadamente as teorias de Campbell e inúmeras conversas entre ambos, Lucas criou sua própria saga do herói. Herói que usamos como guia no nosso próprio caminho, pois segundo Campbell, existe um herói em cada um de nós.
Para a construção da saga, o diretor usou os símbolos presentes nas narrativas mitológicas que surgem em todo o globo e através dos tempos. Resultado final, desde sua estréia o filme é cultuado, entrando de maneira definitiva para a cultura popular.


Um caso recente e muito semelhante foi o filme Avatar. Repleto de simbolismo mitológico, fator que, em minha opinião, foi determinante para o grande sucesso, principalmente com o público jovem e também com o público adulto, que ainda não matou o herói dentro de si.
É claro que a tecnologia empregada foi incrível, mas o diálogo entre o simbolismo e nosso inconsciente foi a característica principal. Ao meu ver, a tecnologia 3D atrapalha o melhor entendimento da estória, pois ficamos focando nossa atenção nos objetos que saltam deliciosamente da tela. Crianças estendem as mãos na tentativa de captura. Confesso que também tentei.

A simbologia:
. Começa pelo titulo, Avatar - sânscrito Aval, “Aquele que descende de Deus”;

. Planeta Pandora - Na mitologia grega, “a que tudo dá” ou  “a que tudo possui”. Foi a primeira mulher criada por Zeus. Lugar desconhecido, para nós e para o herói. Na mitologia antiga o palco seria uma floresta, o submundo. Em locais desconhecidos e misteriosos todo tipo de magia e aventura podem acontecer. Nos dias de hoje, poucos são os lugares em nosso planeta que forneceriam tal palco. Mas ainda temos o cosmos, onde tudo é permitido.

. Herói - formação humilde e básica, com limitação física.  Nada de muito importante era esperado do rapaz, no conceito material da sociedade. E foi nessa sociedade que ele perdeu a mobilidade. Ele ficou incapaz de caminhar nas próprias pernas.

. Feminino - foi tratado com grande carinho e sutileza. Nome do planeta,“a que tudo dá”, “a que tudo possui”, a primeira mulher criada por Zeus. Não foi o chefe da tribo que aceitou o herói e sim a chefe espiritual da tribo. Quem introduziu o rapaz nos primeiros passos da cultura na’vi foi a fêmea alienígena,  como uma mãe que ensina os primeiros passos ao filho.
Uma fêmea humana cuidava do seu corpo humano, mesmo estando desconectado do avatar. Ela o alimentava, mostrava preocupação com sua higiene e ensinava o melhor comportamento perante os alienígenas. Mais uma vez a alusão à mãe. A cena em que mostra o mais temido predador em troca de carinhos e brincadeiras com seus filhotes. A militar que auxilia e deserta em nome do que é certo fazer. E é claro, a natureza como a grande mãe, a que gera, mantém a vida e acolhe a alma quando a vida transitória termina.

. Árvore mitológica - uma árvore poderosa, tanto em aparência como em força sobrenatural. Símbolo do eixo do mundo. Em suas raízes reside todo conhecimento e sabedoria existentes. Tão grande o seu poder que desejos podem ser solicitados e realizados.  Seus frutos ou sementes espalham poder e/ou conhecimento. Podemos estar descrevendo a Árvore da Almas do filme, ou então a Árvore Sagrada Yggdrasil da mitologia nórdica ou ainda, muitas outras presentes nos mitos da humanidade.
A Árvore da Vida bíblica, que também é exemplo,  encontra paralelos nas civilizações suméria, assíria, egípcia, persa (como a haoma) e chinesa. Encontrada também no Budismo – a árvore da iluminação e no Candomblé – a árvore-mundo.

. Domar ou submeter uma fera - No vôo onde o herói submete a fera e cria uma conexão, onde a fera sente o cavaleiro e o cavaleiro sente a fera - unicidade. Nessa cena esta implícito a necessidade do herói em domar seu lado animal, sublimando uma energia muito poderosa, energia essa que será utilizada para alcançar o objetivo final.
Fazer com que o “cavalo” siga as ordens do cavaleiro, como a metáfora descrita por Freud, onde o ego é um cavaleiro e o cavalo selvagem representa o id. Ou o primeiro trabalho de Hércules, não apenas matar o leão de Neméia mas usar a pele resistente do animal como armadura. Usar nossa força animal/instintiva para enfrentar os obstáculos e atingir a vitória. A vitória final de tornar-se supra-homem.

. A magia - quando tudo parece perdido, um milagre, uma mágica acontece. Os animais, antes um perigo mortal, transformam-se em aliados. Novamente o animal, o inconsciente, o instinto, o desconhecido vem em socorro.

. Aceitar o diferente - Quando a heroína pega nos braços o humano – pequeno, fraco, sem conseguir respirar, sem conseguir ficar em pé – ela não mostra surpresa nem repulsa ao ver pela primeira vez o seu amor na forma real. Uma forma que estando saudável já poderia causar desprezo à uma espécie de 3 metros de altura que prima por sua força e agilidade física. A mensagem que fica é: Não importa de onde você vem. Não importa qual a sua aparência. O que realmente importa é o que você é por dentro. O que importa é a verdade do seu espírito.
Uma mensagem importante para  jovens de uma sociedade que é bombardeada pela cultura da aparência: roupas legais, corpo de uma determinada maneira, muito dinheiro, estilo pegador e no espírito... o que é espírito mesmo?

 .No final, morte e ressurreição - morrer como homem e nascer como supra-homem – acima do homem, além do homem.

“Os mitos não devem ser julgados como falsos ou verdadeiros, mas como eficazes e ineficazes, salutares ou patogênicos.” (Joseph Campbell)

O inconsciente é menos alimentado nos dias atuais. Gostem ou não, é ele quem norteia muitas das nossas decisões. Damos desculpas racionais para atitudes que encontram sua real motivação nos instintos, nos estados psicológicos mal trabalhados ou ignorados.

Infeliz daquele que acredita que a verdade do ser está aprisionada entre as paredes frias do raciocínio lógico - científico vigente e / ou das teorias sócio - políticas - ideológicas. Pois a verdade é um elefante branco tocado por 3 homens cegos...
... o primeiro toca a fina cauda e diz que é uma corda..
... o segundo toca a grossa perna e diz que é um tronco...
… o terceiro toca a tromba e diz que é uma cobra.




Por Cintia B. Silva

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domingo, 17 de julho de 2011

Crescendo com os mitos


Em sociedades tribais, antigas ou modernas, a criança é submetida aos mitos da tribo, semelhantes aos contos infantis. Durante toda sua vida ela participará de “sessões mitológicas” onde serão narradas aventuras e sagas que tocam fundo na alma, emoções profundas emergem, sensação de completude e razão da existência são experimentadas. Nesses contos são transmitidas verdades psicológicas através de narrativa fantástica.

Os mitos não são suficientes para integrar completamente o indivíduo ao grupo e mostrar sua nova posição dentro do mesmo. Para um efeito mais dramático são necessários  ritos – mitos transmitidos através da ação.
Um dos ritos de passagem mais importante acontece da infância para adolescência. No caso do menino, ele será submetido a um ritual que geralmente inclui maus tratos físicos significativos.  Nele o jovem será posicionado como servo da sociedade. A menina geralmente não passará por um mito encenado, pois seu corpo já realiza um rito de passagem com a chegada da menarca (1a. menstruação), posicionando-a  como serva da natureza.

Através dessas técnicas o psicológico, o espírito, vão sendo alimentados sistematicamente. É interessante lembrar que, em cada rito de passagem os familiares e amigos do ator principal estarão presentes, reafirmando, em seu íntimo, a função e o lugar de cada um dentro do grupo.

O surpreendente é: os mitos e ritos se repetem ao longo do tempo, em locais geográficos diversos e em sociedades totalmente distintas, onde a transmissão dos mesmos entre os diferentes povos seria improvável . Os símbolos apresentados são similares, não iguais. Similares no sentido mais profundo, mostrando assim, que os mitos não são inventados, eles surgem e são reconhecidos para serem utilizados como catalisadores do bem estar espiritual.

Em nossa mega sociedade, a criança na passagem para adolescência não recebe apoio para canalizar seus instintos e emoções emergentes. Quando as necessidades de completude, de pertencer a algum lugar, de ter uma função definida dentro do grupo são negadas, o jovem  irá em busca de uma  mitologia. Essa busca é uma tentativa de dar vazão às energias poderosas do imaterial.

Eleger um herói é lugar comum, porém altamente necessário nesse período.
O lugar será ocupado por uma estrela ou grupo de música, uma personagem de quadrinhos ou filme.
O grupo de apoio, que deveria ser formado pelos membros mais experientes da comunidade, será substituído por membros igualmente imaturos, unidos pela busca.

Em casos extremos, mas não incomuns, o jovem elegerá uma gangue como grupo, onde a mitologia será de violência, intolerância e desrespeito ao ideais humanos mais elevados. Seria uma vingança? Talvez. Ao jovem foi negado segurança psicológica e a definição de um lugar.

Cria-se uma tentativa de sociedade alternativa, pois a atual é incompetente para suprir as necessidades do indivíduo, que agora está  recebendo o chamamento interno para ter uma atitude ativa perante os seus iguais.


Por Cintia B. Silva

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quarta-feira, 13 de julho de 2011

Manipulando a verdade



Para a sociedade contemporânea, nas vozes de alguns de seus intelectuais, os mitos são de pouca importância, pois não transmitem a realidade dos fatos. Na sua pior versão, eles seriam utilizados para manipular a massa inculta. Será?

. Primeiros heróis da liberdade e democracia grega - 500 a.c.
mítica - Harmódio e Aristogiton mataram o tirano Hiparco em 514 a.c., abrindo assim as portas para a democracia grega. Foram erigidas belas estátuas em homenagem aos tiranicidas.


Visto pelo ângulo da mítica ou observando as estátuas, os dois heróis deveriam possuir motivações políticas e sociais, visando com o assassinato do governante, obter liberdade e maior justiça ao povo de Atenas. Porém, se todos os detalhes forem conhecidos veremos a real motivação do crime.

Harmódio e Aristogíton eram amantes. Harmódio adolescente e Aristogíton provavelmente 30 anos. Harmódio recebeu propostas sexuais do tirano Hiparco. Propostas essas que o jovem rejeitou. Para vingar-se o tirano humilhou publicamente a irmã de Harmódio. O ato gerou a fúria dos amantes que culminou no assassinato do tirano e a posterior execução dos heróis atenienses.

Manipuladores ou criadores de mitos,  aproveitaram um assassinato passional - motivado puramente nas paixões humanas - para criarem heróis que teriam realizado o sacrifício por um bem maior,  motivados pela liberdade de uma sociedade.


. Revolução Francesa - 1789
Para a maioria de nós, a Revolução Francesa soa como luta pela liberdade, a vitória do cidadão oprimido contra o déspota monárquico. E  a Queda da Bastilha sela o fim do sofrimento, da opressão e injustiça.
“Liberdade, Igualdade e Fraternidade” no grito máximo dos lideres revolucionários e uma de suas vozes mais famosas: Robespierre.

Continuando na linha do tempo, verificamos que após a queda da monarquia, o governo revolucionário impõe a Política do Terror onde as garantias civis são suspensas e o novo governo persegue e assassina seus adversários, sejam eles da nobreza ou não.  
Sob a liderança de Robespierre, o Grande Terror (terror apenas não era suficiente - precisava do grande) suprimiu a defesa e o interrogatório prévio dos acusados e em 6 semanas 1.376 suspeitos foram guilhotinados em Paris.

Durante o período de luta a liberdade foi tolhida, a fraternidade inexistente e a igualdade, se existiu, foi quando a guilhotina, a mando dos próprios revolucionários, desceu para Maximilien Robespierre.

Dez anos depois do começo da revolução, o seu final foi marcado pela subida ao poder de Napoleão Bonaparte, que mais tarde iria declarar-se imperador. Seu governo duraria 16 anos.

Trocaram um déspota da nobreza por um déspota revolucionário, pois Bonaparte fez parte ativa na Revolução Francesa.

Nós aprendemos a manipular verdades e criar mitos. Esses mitos não elevam nossos sentimentos e deixam o espírito subnutrido, gerando uma sociedade fraca e doente. Onde o lugar do indivíduo não esta bem localizado. Muitas vezes, nós sentimos como se não houvesse um lugar.


Por Cintia B. Silva